Posted On 20/08/2013 By In Opinión, Portugués, Teología With 1267 Views

Hugo Asmann: ni Marx ni yo. Por onde anda a teologia da libertação latino-americana (2)

Recupero três fidelidades de um passado ainda em aberto e pergunto pelas tarefas e paixão da teologia da libertação – feminista e radical. Me posiciono de modo pouco confortável na trajetória de teologia latino-americana. Não busco consenso nem aprovação, mas companhia, camaradagem, cumplicidade na conversa –improvável mas deliciosa – com Jose Comblin, Hugo Asmann e Marcella Althaus-Reid: presente!

Hugo Asmann: ni Marx ni yo 

Vez e outra volto para meus livros mais queridos… revisitei minha biblioteca procurando vozes do passado que gostaria que me ajudassem a aprofundar o compromisso com um cristianismo libertador na América Latina. Não queria os textos óbvios! Queria os textos difíceis porque este é um tema que precisa ser complicado, fugir das respostas acomodadas e simples. Fui buscar textos em que a teologia da libertação pergunta pelo cristianismo na América Latina sem respostas prontas… sem truques epistêmicos ou genealogias domesticadas.

Encontrei o texto de Raúl Vidales de 1982: Volveré… y seré millones[1], editado por CELADEC – Comisión Evangélica Lationamericana de Educación Cristiana. O título do livro recupera a expressão atribuída a Tupac Katari, liderança indígena na luta contra a violência colonial.

Raul Vidales apresenta uma reflexão sobre “El sujeto historico de la Teologia de la Liberación” e abre para o debate com Enrique Dussel, Hugo Asmmann, Jurgen Moltmann, Luis Rivera Pagan e outros (num tempo em que as teólogas ainda não existiamos, eles diriam!). As perguntas e debates são extremamente honestas, quase severas, difíceis. Nada fica intacto! Tudo pode ser criticado!

Dussel dispara:

si la teologia parte de la teologia, entonces yo tomo el Worterbuch de Kittel. Si la teologia parte de la comunidad cristiana, entonces yo parto de la historia de la iglesia. Pero si la teologia quisiera partir de la realidad concreta de la acción de esas mayorias oprimidas el problema es mucho mas complejo y exige uma precisión categorial mayor también.”

Moltmann pergunta:

“¿por qué tenía que llegar a ser cristiano? Si comienzo por este método no veo razón de hacerme cristiano.”

Responde o jovem Hugo Assmann:

Aquí sí me vuelvo materialista. Se trata de la última instancia material de la vida real. Ni Marx ni yo jamás hemos dicho otra cosa: la vida, la produción de la vida real, la reproducción de la vida real, la reproducción de las condiciones de la vida real… La consciencia es material. El funcionamento de todo lo que implica la capacidad de la alegria, la capacidad de pensar, la capacidad real de gustar la belleza, todo eso es material porque se inscribe en el ser material de los hombres. Esa última instancia de la vida para mi… no puede ser contestada sin la intromisión de uma transcendentalidad en el seno de la vida real… en el encuentro entre el materialismo histórico y los reclamos más originales de la tradición judío-cristiana.”

Mesmo sabendo que o último Assmann denunciou las falsas fidelidades a la TdL como esclerosis y rutinización e a presença de temas sociais nos discursos oficiais das igrejas e dos teólogos como clara tendencia de autoconservación y encerramiento sobre si mismas…  a afirmação de fé se projeta até nós hoje: la vida! la vida! Dussel vai insistir na realidade concreta de ação das maiorias: a vida! a vida!

O passado joga luz e se apresenta como interrogante necessária: o meu/nosso lugar de significado, entre a tradição de fé e teoria,  não pode partir da teologia mesmo… nem da história da igreja. Materialista, eu também vou pensar o cristianismo na América Latina a partir da vida, da realidade… da luta de classes e as intromissões de alegria e beleza. Assim a vida dos pobres: homens e mulheres.

O passado não nos oferece “as contribuições do cristianismo liberador para América Latina” – este não pode ser o ponto de partida, nem o ponto de chegada…

Como religião imposta o cristianismo não tem contribuição positiva por si. Não há maneira de mudar esta avaliação sem comprometer os dados e as interpretações da história já conhecida por todos/as e radicalizar na opção de encarnação na via e cultura dos homens e mulheres pobres do continente.

A teologia/teologias devem necessariamente ser entendidas dentro do quadro do conflito, da luta de classes dramática na AL. Significa dizer que setores hegemônicos do cristianismo continuam comprometidos com as elites capitalistas do continente e seus interesses globalizados. Neste sentido reafirmar a Teologia da Libertação e suas variações deve se atualizar permanentemente como cristianismo que se deixa evangelizar pelos pobre como retomada vital da encarnação, que entre nós chamamos Jesus.

Seguindo esta radicalidade do método é preciso evitar todo e qualquer processo de idealização da teologia da libertação, tanto na forma do elogio acrítico como nos reducionismos de modelos exemplares que imobilizariam a libertação da teologia mesmo, em especial em idealizações eclesiais/eclesiásticas.

Dizer da Teologia da Libertação não pode ser um projeto dominado por uma temporalidade ordenada, linear, tratando de alinhavar bem sucedidas prosas teológicas. Não! não será pela lista pródiga de livros e escritos, nem pelo número de conferências e ouvintes. Não se poderia avaliar a Teologia da Libertação a partir dos nomes de seus filhos mais ilustres… Parida na luta de classes dos terríveis anos de chumbo na América Latina, a história da Teologia da Libertação não pode ser uma montagem seletiva de autores, ideias e escritos.

Qualquer revisão ou avaliação histórica terá de incluir o que não pode ser dito: a censura! Terá de lidar com sons incompreensíveis e grunhidos: a tortura. Terá de ressuscitar os mortos – pessoas e comunidades. A Teologia da Libertação sempre vive de elementos preteridos e esquecidos, faz do lugar dos vencidos seu lugar privilegiado de aprendizagem, escuta e escrita. Impossível estar aí neste lugar da fragilidade e do fracasso imposto pela rapina burguesa e não se deixar contaminar pela vulnerabilidade da opção.

@ teólog@ entre os viventes é o canibal, um ‘polemista’ (do grego pólemos = luta, combate).  A teologia como linguagem polêmica, de luta.. com sua  lógica alegórica criando  uma distância explícita entre os signos e as coisas, de tal sorte que o mundo da linguagem se torna plural; compreendido como valor, como mediação, deixa de impor um sentido único, automático e viciado da significação.

A teologia da libertação não explica: desexplica! Sem caráter descritivo, não se contenta em estabelecer nexo causal entre isso e aquilo, deus e o mundo.  A teologia atrasa relógios, ataca o mecanismo de permanência e constância e  desinstala o tic-tac ininterrupto e participa da criação desse tempo de agora, o momento exato onde é possível intervir, alterar, destruir, transformar. Como narrativa e ritual a teologia pode fissurar o tempo e estilhaçar o fluxo vazio do tempo passante do “progressismo” burguês.

E Deus também não pode ser “o grande relógio” a marcar o tempo e a história como mecanismo fora do tempo mesmo e da história. A teologia burguesa de um deus intervencionista e onipotente funcionou e funciona como normatizador do relato dos vencedores. O deus de Jesus, encarnado na história morre na luta dos pobres e ressuscita na luta dos pobres, não como fator de certeza e justiça predestinada, mas como exercício constante de radical solidariedade e amor revolucionário, profunda misericórdia e fidelidade à vida.

Assim não há certezas escatológicas nem especulações metafísicas garantidoras de uma ação divina realizadora da justiça… que confortem teólogos e teologias em suas cátedras “rasas e confortáveis”… parafraseando o mesmo Mariátegui:

A (teologia) burguesa se satisfaz com uma crítica racionalista do método, da teoria, da técnica das práticas pastorais… Que incompreensão! A força dos agentes eclesiais de base não reside em sua ciência e sim em sua fé, sua paixão, sua vontade. É uma força religiosa, mística, espiritual. É a força do Mito. A emoção revolucionária (…) é uma emoção religiosa. As motivações religiosas se deslocaram do céu para a terra. Elas não são divinas, mas humanas e sociais” (Mariátegui, El hombre y el mito, em  El Alma Matinal, 1925).


[1] VIDALLES, Raul, Volveré… y seré millones , CELADEC – Comisión Evangélica Lationamericana de Educación Cristiana, Lima, 1982.

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