Posted On 09/08/2013 By In Opinión, Portugués, Teología With 1264 Views

Memória, Compromisso e Libertação : por onde anda a teologia da libertação latino-americana (1)

Recupero três fidelidades de um passado ainda em aberto e pergunto pelas tarefas e paixão da teologia da libertação – feminista e radical. Me posiciono de modo pouco confortável na trajetória de teologia latino-americana. Não busco consenso nem aprovação, mas companhia, camaradagem, cumplicidade na conversa –improvável mas deliciosa – com Jose Comblin, Hugo Asmann e Marcella Althaus-Reid: presente!

1-   A desconfiança do camponês: saudades do Padre Comblin

“Um camponês achava estranho que o padre da paróquia lia um trecho da Bíblia cada domingo, e cada domingo a Bíblia dava razão ao padre. O camponês dizia: «Não pode ser que a Bíblia sempre dê razão ao padre e nunca a nós, os camponeses. Acho que o padre não lê tudo, mas escolhe o que lhe convém». E assim foi: os textos propostos pela liturgia eram textos selecionados e os pregadores comentavam o que lhes convinha. Ora, o que interessava aos camponeses era justamente o resto, aquilo que os clérigos não liam e muito menos comentavam.”[1]

Esta pequena narrativa apresentada por José Comblin faz parte da Introdução Geral do Comentário Bíblico Latino Americano de 1985. O texto inicia afirmando: Este é um comentário latino-americano da Bíblia. Na forma de parábola o autor apresenta a identidade e as motivações do Comentário Latino-Americano.

De um lado o “camponês” e sua desconfiança. Do outro lado o “padre da paróquia” e seu controle sobre o texto bíblico. Este encontro entre a desconfiança do camponês e o poder do padre acontece “cada domingo” no espaço da “liturgia”. O poder de seleção e comentário dos textos bíblicos pertence ao “padre” que exerce sua leitura com autoridade de “escolher o que lhe convém”. O “camponês” tem o poder da suspeita, de ouvir a leitura e identificar as lacunas de sentido, identificar o texto atrelado às “razões do padre” e desautorizar a Bíblia por seu desinteresse com a “razão camponesa”. A desconfiança do “camponês” se expressa na fórmula: “não pode ser!” como intuição de que a Bíblia não está sendo comunicada na sua inteireza – “o padre não lê tudo” – e como reivindicação de que da Bíblia se leia o que “interessa aos camponeses”.

Este texto traduz bem o momento da leitura bíblica latino-americana em 1985 no âmbito das lutas de libertação que atravessavam o continente, dos movimentos de resistência contra a violência de ditaduras militares e na radicalidade evangélica da teologia da libertação. Os conflitos da luta de classes se expressam também no espaço eclesial, nos “domingos” e suas “liturgias”, no poder desigual entre o “padre” e o “camponês”, na leitura bíblica  marcada por interesses contrários, na luta pelo processo de produção, gestão e socialização de significados de crença. A leitura da Bíblia controlada por um corpo burocrático sacerdotal impede que leigos tenham acesso ao processo hermenêutico e participem da produção dos significados teológicos. Mais do que a oposição clero-leigo, o Comentário assume a contradição de classe no âmbito da leitura bíblica na oposição entre um segmento de controle de saber versus o “camponês”.

Nos últimos 25 anos esta percepção do campo de leitura, estudo e interpretação da Bíblia como campo de poder e de conflito foi vital no desenvolvimento e no trabalho crítico e criativo de metodologias, procedimentos e estratégias que constituíssem a “desconfiança do camponês” como lugar epistêmico e de espiritualidade que marca a leitura bíblica latino-americana.

Nesse um ano de saudade do Pe. Comblin e outros companheiros e companheiras de leitura latino-americana da Bíblia reafirmamos nosso compromisso em nos deixar evangelizar pelos homens e mulheres pobres… origem e trajetória do trabalho popular da Bíblia.

Muit@s biblistas hoje fazem Bíblia na Universidade e querem que o método evite a todo custo a parcialidade. Teorias, traduções, críticas literárias que nascem, se reproduzem e morrem na academia. Não explicitam a prática da qual procedem… que é a realidade mesmo de intelectuais que vendem exegese. Também não formulam prática alguma para além dos relatórios de produtividade e alguma competição entre os pares.

Esta contradição sempre existiu… mas agora – que ninguém se engane! – já não é leitura libertadora latino-americana… esta ainda depende da desconfiança do camponês e alguma saudade do Padre Comblin.

Este comentário tenciona recolher a interpretação da Bíblia vivida pela prática do povo cristão na América Latina neste fim do século XX. Está consciente da parcialidade do sentido assim recolhido. Mas, mesmo sendo parcial, tem a vantagem de ser vivido. Não se trata de um sentido puramente abstrato, mas de algo experimentado. Pode-se dizer que todos os comentários fazem a mesma coisa. Há, contudo uma diferença. Os comentários acadêmicos nem sempre explicitam a prática da qual procedem, e não formulam a prática que querem fundamentar.  Este faz questão de explicitar tanto a prática da qual procede, como a prática à qual tende. Não esconde nem as suas origens, nem a sua trajetória.


[1] JOSÉ COMBLIN, Introdução Geral ao COMENTÁRIO BÍBLICO, Leitura da Bíblia na perspectiva dos pobres, Vozes, Petrópolis em co-edição com Imprensa Metodista e Editora Sinodal, 1985

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