Posted On 08/04/2011 By In Teología With 1047 Views

Onde estava Deus na tragédia do Realengo, Rio de Janeiro?

Uma manhã trágica de proporções tão imensas que chamamos de absurdo, aquilo que não se pode ouvir, o que não tem nem nunca terá sentido. Diante do absurdo, ficamos com a dor e o espanto. Ao tentarmos achar razão aumentamos a dor diante da falta de razão que a situação impõe.

Claudio Carvalhaes

Impotência? Talvez, mas melhor seria saber da nossa incapacidade de não conseguirmos dar sentido a tantas coisas, especialmente algo como isso. Uma vez isso posto, é preciso sim vermos o que acontece em torno de nós e os porquês da ausência de cuidados que deveriamos ter um com os outros. As pessoas, as famílias, as estruturas sociais, os aparelhos do estado devem sempre estar a disposição dos cuidados que temos que ter uns com os outros. Esse rapaz, que fez tamanha atrocidade deve então ser o bode expiatório de todas as nossas crueldades? Fácil é acharmos que esse rapaz não tem nada de humano e que ele não tem nada de nós mesmos.  Ele sim é a anomalia e nós a normalidade do que é a medida do humano. Entretanto, essa linha divisória, embora exista, não é e nunca sera tão clara assim. Somos essa amálgama de beleza e horror, graça e assombro, amor e ódio, gentileza e brutalidade.

Esse rapaz precisava de cuidado. E cometeu um ato atroz, inominável. Ceifou a vida de 10 meninas e 2 meninos. Teremos que nos perguntar novamente sobre o cuidado que nossas famílias  e amigos deveriam ter uns com os outros. Também teremos que perguntar: é certo a liberdade do porte de armas? Estão nossas escolas preparadas para cuidar de nossas crianças? Seria a internet desregulada ou games violentos sinais de influências maléficas que forja comportamentos violentos?

Estas e outras questões são importantes. Mas é preciso saber que nada irá explicar o que é inexplicável. É preciso também não atrelarmos a anossa dor e ódio a esse menino a quem tem problemas mentais ou demonizar religiões ou quem quer que seja.

Ana Carolina Pacheco da Silva, Bianca Rocha Tavares, Géssica Guedes Pereira, Karine Lorraine Chagas de Oliveira, Larissa dos Santos Atanázio, Laryssa, Silva Martins, Luiza Paula da Silveira, Mariana Rocha de Souza, Milena dos Santos Nascimento, SamiraPires Ribeiro, Rafael Pereira da Silva e mais um menino cujo nome ainda não foi revelado.

O que me espanta aqui é a violência contra as mulheres aqui. Por que 10 meninas? Eram elas o alvo maior do assassino? Foram elas o pagamento do bullying que esse rapaz pode ter sofrido? Ou a rejeição interna de todas as mulheres que sonhou? Para um menino ao seu lado ele dizia: “Não vou te amtar gordinho, pode ficar tranquilo.” Novamente, as mulheres pagam pelas incapacidades masculinas de lidar com a vida, com o interdito, com as impossibilidades. Mas fácil é eliminar o que nos limita em nosso desejo de vontade absoluta.

E Deus nessa história, onde estava? Vivi o 11 de setembro em Nova York quando ia para meu primeiro dia de aula no Union Theological Seminary da Universidade Columbia. A pergunta era a mesma. Deus não estava em lugar nenhum que eu pudesse ver ou sentir ou imaginar ou crer. O que eu vi e vejo hoje, senti e sinto hoje, imaginei e imagino hoje e cri e creio hoje é que Deus que vem depois, na presença do pm que diminui a extensão da dor, no cuidado dos transeuntes e bombeiros levando os feridos apra o hspital, na fila de quarto horas de cidadãos-amantes do humano e dos que sofreram o ataque.  Esse povo ali, naquela hora da morte eram a aparição mais clara de Deus, aparecendo logo depois, no monento em que temos terra devastada, quando nada ou pouco se sabe do que ocorreu ou do que ainda está em movimento.

Assim como também Deus apareceu para a vida de famílias que perderam seus filhos no circo que queimou em Niteroi tantos anos atrás na figura de Gentileza que largou tudo para plantar um jardim no lugar do incêndio e viva de visitar as famílias que viviam seu luto.

Como Deus continuará a vir agora, nestes dias seguintes no cuidado das famílias, na solidariedade do povo, no ouvir dos gritos de dor, no guardar das lágrimas das famílias das vítimas, enfim, na fragilidade e na quebradura que a gente é e pode oferecer uns aos outros.

Sim, Deus vem depois.

Cláudio Carvalhaes

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